O dólar está ganhando uma nova forma: como USDT e USDC estão levando a moeda americana para o blockchain

O dólar americano está passando por uma transformação que acontece longe das cédulas, dos bancos centrais e das contas bancárias tradicionais. Nos últimos anos, uma nova forma de representar a moeda surgiu dentro das redes blockchain: as chamadas stablecoins, criptomoedas projetadas para manter seu valor próximo de uma moeda tradicional.
Entre elas, duas dominam o mercado: USDT, emitida pela Tether, e USDC, emitida pela Circle. O crescimento dessas moedas digitais transformou o dólar em uma espécie de ativo nativo da internet, capaz de ser movimentado entre carteiras digitais, plataformas financeiras e países sem depender necessariamente da estrutura tradicional de pagamentos.
O fenômeno já alcançou uma escala considerável. Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o mercado global de stablecoins chegou a aproximadamente US$ 320 bilhões em maio de 2026. Cerca de 98% do valor das stablecoins é denominado em dólar, o que mostra o tamanho da predominância da moeda americana nesse mercado.
O que é uma stablecoin?
Uma stablecoin é um ativo digital criado para tentar manter um valor estável em relação a outro ativo. No caso do USDT e do USDC, a referência é o dólar americano.
Na prática, a proposta é simples: 1 USDT ou 1 USDC deve valer aproximadamente US$ 1. Para sustentar essa relação, as empresas emissoras mantêm reservas que, segundo suas próprias divulgações, são compostas principalmente por dinheiro, títulos públicos de curto prazo e outros ativos líquidos.
Isso diferencia as stablecoins de criptomoedas como o Bitcoin. Enquanto o preço do Bitcoin pode variar fortemente em poucas horas, uma stablecoin vinculada ao dólar foi concebida para funcionar como uma representação digital da moeda americana.
USDT e USDC já movimentam centenas de bilhões
A maior delas é o USDT, da Tether. No fim do segundo trimestre de 2026, a empresa informou que tinha aproximadamente US$ 184,6 bilhões em tokens USDT emitidos, representando mais de 60% do mercado de stablecoins naquele momento. A Tether também informou lucro operacional de US$ 1,5 bilhão no segundo trimestre e uma reserva excedente de US$ 4,11 bilhões.
O USDC, por sua vez, é emitido pela Circle. Em 7 de setembro de 2026, havia aproximadamente US$ 74,3 bilhões em USDC em circulação, segundo a própria empresa. O token é emitido nativamente em dezenas de redes blockchain e pode ser utilizado em diferentes infraestruturas digitais.
A diferença de tamanho não significa que as duas moedas tenham exatamente o mesmo modelo operacional ou perfil de mercado. A Tether possui uma participação muito maior em USDT, enquanto a Circle enfatiza uma estrutura de reservas, transparência e conformidade regulatória mais integrada ao sistema financeiro tradicional.
Como essas empresas ganham dinheiro?
Aqui está uma das partes mais importantes desse mercado. Quando alguém compra uma stablecoin, o emissor recebe recursos que precisam ser administrados para manter as reservas que sustentam os tokens em circulação. Esses recursos podem ser aplicados em ativos de baixo risco e alta liquidez, especialmente títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curto prazo.
Os juros obtidos com essas reservas podem se transformar em uma importante fonte de receita para as empresas emissoras.
O BIS observa que os grandes emissores de stablecoins mantêm reservas concentradas em instrumentos denominados em dólar, incluindo títulos públicos de curto prazo, dinheiro e operações compromissadas. Os títulos do Tesouro mantidos por esses emissores já alcançaram uma escala comparável à de grandes investidores institucionais.
Isso cria uma relação interessante: quanto mais stablecoins são emitidas, maior pode ser a quantidade de dólares e títulos americanos necessários para sustentar esse mercado.
O Tesouro americano ganhou um novo comprador
Esse crescimento também começa a ter importância para o próprio mercado financeiro dos Estados Unidos.
Um estudo do BIS mostrou que as stablecoins lastreadas em dólar tinham mais de US$ 270 bilhões em ativos no fim de 2025, dos quais aproximadamente US$ 153 bilhões estavam investidos em títulos do Tesouro americano de curto prazo. Durante 2025, os emissores compraram cerca de US$ 33 bilhões em Treasury bills.
Isso significa que empresas privadas responsáveis por emitir tokens digitais passaram a ocupar uma posição relevante no mercado de dívida de curto prazo dos Estados Unidos.
O fenômeno também ajuda a explicar por que o crescimento das stablecoins interessa ao governo americano. Em 2025, os Estados Unidos aprovaram o GENIUS Act, criando um marco regulatório federal para stablecoins de pagamento. O Departamento do Tesouro afirmou que a legislação poderia ampliar o mercado e aumentar a demanda por títulos do Tesouro utilizados como reservas.
Por que alguém usaria USDT ou USDC em vez de dólares?
Uma das principais vantagens está na capacidade de movimentar o ativo pela internet. Uma pessoa pode manter USDT ou USDC em uma carteira digital e transferi-los para outra carteira sem que a operação precise seguir exatamente o mesmo caminho de uma transferência bancária internacional tradicional.
Isso pode ser particularmente relevante em países onde existe inflação elevada, dificuldade de acesso ao dólar, restrições cambiais ou sistemas financeiros menos integrados.
Um estudo do BIS publicado em 2026 encontrou evidências de que mais de 70% das conversões entre moedas fiduciárias e stablecoins analisadas tinham origem em moedas que não eram o dólar. Ou seja, uma parte importante da demanda consiste justamente em transformar uma moeda local em exposição digital ao dólar.
É uma espécie de dolarização digital: em vez de manter notas de dólar ou uma conta bancária em moeda americana, o usuário mantém um token que busca acompanhar o valor do dólar.
Mas stablecoins ainda não substituíram os bancos
Apesar dos números impressionantes, é importante colocar o mercado em perspectiva. O BIS estima que as stablecoins movimentaram cerca de US$ 28 trilhões em transações em 2025, mas grande parte desse volume está relacionada ao próprio ecossistema de criptomoedas. Os pagamentos ligados à economia real representaram uma parcela muito menor.
Isso significa que ainda existe uma diferença enorme entre movimentar tokens dentro de mercados financeiros digitais e substituir sistemas tradicionais de pagamentos utilizados por empresas e consumidores diariamente.
Mesmo assim, a infraestrutura está sendo construída. O USDC, por exemplo, já está disponível em mais de 185 países, segundo a Circle, e a empresa afirma que o ativo pode ser utilizado em aplicações financeiras programáveis e transferências internacionais.
O risco de uma dolarização digital
O avanço das stablecoins também preocupa bancos centrais. Se pessoas de países com moedas mais frágeis começarem a substituir depósitos bancários locais por stablecoins em dólar, parte da população poderá passar a utilizar uma moeda estrangeira sem precisar abrir uma conta tradicional nos Estados Unidos.
O BIS chama atenção para esse risco e afirma que uma adoção ampla poderia aumentar a chamada dolarização digital, afetando a autonomia monetária de países emergentes. Como aproximadamente 98% do mercado é denominado em dólar, a expansão das stablecoins tende, inicialmente, a reforçar a posição internacional da moeda americana.
Há também riscos relacionados às reservas, liquidez, segurança das plataformas, lavagem de dinheiro e estabilidade financeira. O próprio BIS afirma que as stablecoins ainda apresentam limitações importantes em relação às características tradicionais do dinheiro.







