Indústria brasileira esbarra nos juros altos para financiar produção e crescimento

O custo elevado do dinheiro continua sendo o principal obstáculo para empresas industriais que precisam financiar capital de giro, máquinas ou expansão. Levantamento da CNI mostra que 76% das indústrias que enfrentaram dificuldades para obter crédito de curto ou médio prazo apontaram os juros como uma das principais barreiras.
O acesso ao crédito segue como um dos principais desafios da indústria brasileira. Mesmo com o início da redução da taxa básica de juros, empresas ainda encontram empréstimos caros, exigências elevadas de garantias e dificuldade para financiar investimentos de longo prazo.
A Sondagem Especial sobre Condições de Acesso ao Crédito, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ouviu 1.701 empresas de diferentes portes. Entre aquelas que tiveram dificuldades para contratar financiamento de curto ou médio prazo, 76% citaram os juros elevados. No crédito de longo prazo, com vencimento superior a cinco anos, o percentual chegou a aproximadamente 69%.
Crédito caro afeta desde o caixa até novos investimentos
O impacto das taxas elevadas não se restringe aos grandes projetos industriais. Quase 60% das empresas que recorreram a crédito de curto ou médio prazo utilizaram os recursos principalmente para capital de giro, destinado a despesas como compra de insumos, pagamento de fornecedores e manutenção das operações.
No financiamento de longo prazo, o capital de giro também apareceu como principal finalidade para 28,7% das empresas, superando os 23,6% que utilizaram ou buscaram recursos para compra de máquinas e equipamentos. O resultado chama atenção porque linhas mais longas normalmente são associadas a investimentos produtivos, e não às despesas do dia a dia.
Quando uma indústria precisa recorrer a financiamentos longos para sustentar a operação corrente, sobra menos espaço para modernização, aumento de produtividade e ampliação da capacidade de produção.
Mais de um terço não consegue financiamento de longo prazo
A dificuldade também aparece entre as empresas que efetivamente tentam obter recursos. Considerando apenas aquelas que buscaram crédito de longo prazo, 37,2% não conseguiram contratar ou renovar o financiamento. Em 2025, esse percentual era de 33%.
O problema é ainda maior entre empresas menores. Quase metade das pequenas indústrias que buscou financiamento de longo prazo não conseguiu acesso: a taxa de insucesso chegou a 48,2%, praticamente igual aos 48,1% registrados entre empresas médias. Entre as grandes, foram 29,9%.
Além dos juros, as garantias exigidas pelas instituições financeiras aparecem como outra barreira relevante. Elas foram citadas por 33,4% das empresas no crédito de curto e médio prazo e por 31,5% no financiamento de longo prazo. A burocracia e períodos de carência considerados insuficientes também aparecem entre as dificuldades.
Metade das empresas sequer procura crédito
Outro dado mostra o tamanho da restrição: 49,9% das indústrias não tentaram contratar ou renovar crédito de curto ou médio prazo no período analisado. No financiamento de longo prazo, essa proporção chegou a 54%.
A decisão de não buscar recursos pode envolver diferentes fatores, mas ocorre em um cenário em que o custo financeiro permanece elevado. A própria CNI observa que reduções na Selic não chegam imediatamente às taxas cobradas das empresas, porque existe uma defasagem até que o movimento seja transmitido ao mercado de crédito.
Custo do financiamento afeta competitividade
Para a indústria, crédito não serve apenas para atravessar períodos de menor atividade. É também uma das principais fontes de financiamento para compra de equipamentos, construção de fábricas, automação e adoção de novas tecnologias.
Quando o dinheiro fica caro ou difícil de obter, empresas podem adiar projetos e operar por mais tempo com estruturas menos produtivas. Isso ganha importância em um ambiente de competição internacional, no qual fabricantes brasileiros disputam mercado com companhias que muitas vezes têm acesso a financiamento mais barato.
Entre as medidas apontadas pelas próprias empresas para facilitar o crédito estão a redução de custos tributários e administrativos, a ampliação de linhas públicas e a simplificação das exigências bancárias.
O desafio, portanto, vai além da taxa básica de juros. Para a indústria brasileira, ampliar o acesso a financiamento de prazo adequado e custo sustentável é parte essencial da capacidade de investir, produzir mais e competir tanto no mercado doméstico quanto no exterior.







