Bolsa Família, Desenrola 3.0 e fim das bets: a conta de até R$ 42,3 bilhões no Orçamento de 2027

Novas medidas anunciadas pelo governo federal alteraram as projeções do Orçamento do próximo ano. O reajuste do Bolsa Família aumenta as despesas, o Desenrola 3.0 cria uma nova obrigação para o Tesouro e o fim das bets retira bilhões em receitas que estavam previstas.
O projeto do Orçamento de 2027 enviado ao Congresso Nacional terá de ser atualizado para incorporar mudanças anunciadas pelo governo federal nas últimas semanas. Entre elas estão o reajuste do Bolsa Família, o novo programa de renegociação de dívidas, chamado Desenrola 3.0, e a decisão de encerrar a operação das plataformas de apostas esportivas.
Dependendo da metodologia utilizada, o impacto sobre as contas de 2027 chega a R$ 42,3 bilhões. Em uma conta que considera apenas os desembolsos previstos para o próximo ano, o efeito fica próximo de R$ 33 bilhões. A diferença está principalmente na forma como o custo do Desenrola 3.0 é contabilizado.
Bolsa Família terá aumento de R$ 600 para R$ 691
A maior despesa adicional está relacionada ao Bolsa Família. O benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, aumento de aproximadamente 15%, com os novos valores previstos para começar a ser pagos em outubro.
Segundo a equipe econômica, o reajuste representa uma recomposição pela inflação acumulada desde o último reajuste e acrescentará aproximadamente R$ 22,7 bilhões às despesas de 2027. Em 2026, o impacto estimado é de R$ 5,8 bilhões.
O governo federal afirma que pretende acomodar o aumento dentro do próprio espaço fiscal, por meio de ajustes e remanejamento de despesas. Como o reajuste foi anunciado depois do envio da proposta orçamentária ao Congresso, entretanto, será necessário modificar os valores originalmente previstos no projeto.
Desenrola 3.0 pode movimentar R$ 150 bilhões em dívidas
O segundo grande componente é o Desenrola 3.0. O programa prevê uma operação na qual o Tesouro Nacional poderá adquirir carteiras de créditos inadimplentes dos bancos, permitindo que dívidas sejam renegociadas pelos devedores em condições diferentes das originais.
A expectativa é que sejam adquiridos aproximadamente R$ 150 bilhões em dívidas, com descontos que podem chegar a cerca de 90%. O custo estimado para o orçamento é de R$ 15 bilhões.
É justamente esse valor que explica parte da diferença entre as estimativas de impacto. O UOL considera cerca de R$ 5 bilhões de desembolso para 2027, enquanto a conta de R$ 42,3 bilhões utiliza os R$ 15 bilhões como custo total previsto do programa. Assim, os dois números não necessariamente representam cálculos contraditórios, mas critérios diferentes de contabilização.
Fim das bets reduz arrecadação
A terceira mudança ocorre pelo lado das receitas. A proibição das casas de apostas esportivas retira do orçamento uma fonte de arrecadação que estava prevista para 2027.
A estimativa é de aproximadamente R$ 5,3 bilhões em receitas que deixarão de entrar nos cofres federais. Diferentemente do Bolsa Família e do Desenrola, portanto, o efeito das bets não aparece como uma nova despesa, mas como uma redução da receita projetada.
Na prática, o governo federal terá de encontrar espaço para acomodar despesas maiores ao mesmo tempo em que perde uma fonte de recursos que estava considerada na proposta original.
Por que os valores são diferentes?
A conta de R$ 33 bilhões considera aproximadamente R$ 22,7 bilhões do reajuste do Bolsa Família, R$ 5 bilhões de desembolso do Desenrola em 2027 e R$ 5,3 bilhões de receitas que deixarão de ser arrecadadas com as bets.
Já a cifra de R$ 42,3 bilhões considera os R$ 15 bilhões estimados como custo total do Desenrola. Por isso, a diferença não significa necessariamente que uma das estimativas esteja errada. Elas partem de critérios distintos para medir o impacto da renegociação de dívidas.
Congresso terá de analisar uma nova configuração do orçamento
A proposta de Orçamento de 2027 ainda precisa ser discutida e aprovada pelo Congresso. Com as novas medidas, os parlamentares receberão uma peça que terá de incorporar despesas adicionais e uma previsão de receitas menor do que a apresentada inicialmente.
O governo federal afirma que pretende manter o orçamento dentro das regras fiscais e fazer os ajustes necessários por meio de remanejamentos. O resultado final, porém, dependerá da tramitação do projeto e das alterações que forem feitas durante a discussão no Legislativo.
A combinação das três medidas mostra como decisões tomadas ao longo do ano podem modificar significativamente uma proposta orçamentária já encaminhada ao Congresso. Para 2027, o desafio será acomodar mais gastos com benefícios e renegociação de dívidas e, simultaneamente, uma arrecadação menor com as apostas, sem ultrapassar os limites estabelecidos para as contas públicas.







