O que são os BRICS+? Entenda como a expansão do bloco desafia o Ocidente — e quais são suas fragilidades internas

O cenário geopolítico global está passando por uma reconfiguração profunda. O que nasceu como uma sigla de marketing para identificar mercados emergentes — o BRIC — transformou-se em uma força política institucionalizada que agora atende por BRICS+.
Com a entrada de novos membros, o bloco tenta se posicionar como o contraponto ao G7. No entanto, por trás das fotos apertando as mãos, existe um grupo marcado por divisões profundas, interesses conflitantes e uma clara dominância de uma superpotência (China) sobre as demais.
O que são os BRICS+?
Originalmente, o termo BRIC foi cunhado em 2001 por Jim O’Neill, economista do Goldman Sachs, para agrupar Brasil, Rússia, Índia e China. A ideia era puramente econômica: eram os países que dominariam o crescimento global nas décadas seguintes.
Com a inclusão da África do Sul (South Africa) em 2010, o bloco tornou-se BRICS. No entanto, a partir de 2024, o grupo iniciou sua maior expansão histórica, passando a ser chamado informalmente de BRICS+ com a entrada de nações como Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos.
Hoje, o bloco representa:
- Controle sobre vastas reservas de recursos naturais, especialmente energia (petróleo e gás) e minerais críticos.
- Mais de 40% da população mundial.
- Cerca de 35% do PIB global (em paridade de poder de compra), superando a participação do G7.
Como o bloco funciona na prática?
Diferente da União Europeia, o BRICS+ não é um mercado comum com moeda única ou livre circulação de pessoas. Ele funciona como uma plataforma de coordenação política e cooperação econômica. Seus pilares principais são:
- O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB): Conhecido como o “Banco dos BRICS”, ele oferece uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI para o financiamento de projetos de infraestrutura em países emergentes, com menos condicionalidades políticas.
- Arranjo Contingente de Reservas (ACR): Um fundo de proteção para ajudar membros em crises de liquidez ou balanço de pagamentos.
- Desdolarização e Moedas Locais: Uma das pautas mais fortes atualmente é a criação de mecanismos de pagamento que não dependam do sistema SWIFT ou do dólar americano, facilitando o comércio direto entre os membros em suas próprias moedas.
Entenda as limitações e as divisões do bloco
Apesar do peso econômico, o BRICS+ enfrenta barreiras críticas que podem mantê-lo eternamente como a “promessa do futuro” que nunca se concretiza plenamente:
- A Hegemonia Chinesa: Existe uma crítica crescente de que o BRICS+ serve, na verdade, como uma ferramenta de projeção de poder de Pequim. Com uma economia que supera a de todos os outros membros somados, a China frequentemente utiliza o bloco para alinhar países menores aos seus interesses estratégicos, usando-os como massa de manobra em sua disputa comercial contra os Estados Unidos.
- Rivalidades Internas Explosivas: É difícil falar em unidade quando dois dos principais membros, Índia e China, possuem disputas territoriais ativas e uma desconfiança mútua profunda. Da mesma forma, a entrada de Irã e Arábia Saudita (que ainda avalia sua adesão plena) coloca rivais históricos sob o mesmo teto, o que torna a tomada de decisões consensuais quase impossível.
- Heterogeneidade Política e Econômica: O bloco mistura democracias liberais, autocracias e teocracias. Economicamente, enquanto a Índia cresce vigorosamente, países como o Brasil e a Rússia enfrentam décadas de estagnação ou isolamento. Essa falta de alinhamento de valores e ritmos econômicos trava qualquer integração mais profunda.
- Risco de Irrelevância Prática: Sem uma moeda comum viável a curto prazo e com interesses exportadores concorrentes, o bloco corre o risco de ser apenas um “clube de retórica anti-Ocidente”, sem conseguir entregar benefícios econômicos reais e tangíveis para as populações dos países membros.
O Desafio da Coesão
O grande “X” da questão para o futuro dos BRICS+ é a heterogeneidade. Unir democracias como a Índia e o Brasil com regimes autocráticos ou países com rivalidades históricas (como Irã e Arábia Saudita) é um desafio monumental.
No entanto, uma coisa é certa: o surgimento dos BRICS+ marca o fim de uma era de dominância absoluta e o início de uma competição sistêmica onde o domínio da tecnologia, da energia e das rotas de comércio será decidido por novos protagonistas.






