Poder de compra piora para 72% dos brasileiros de baixa renda e pressiona principal base de Lula

A perda do poder de compra passou a ser percebida por 72% dos brasileiros que recebem até dois salários mínimos, faixa de renda em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concentra seus maiores índices de aprovação e intenção de voto. A alta dos alimentos ajuda a explicar por que a insatisfação econômica avançou mesmo em um cenário de desemprego historicamente baixo.
A deterioração aparece na pesquisa Quaest encomendada pela Genial Investimentos. No conjunto da população, 71% dos entrevistados afirmaram que seu poder de compra havia piorado em comparação com um ano antes. Entre quem recebe até dois salários mínimos, o índice chegou a 72%, com crescimento de 13 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
O resultado chama atenção porque esse é justamente o segmento de renda em que Lula mantém seu melhor desempenho político. Na mesma pesquisa, 57% desse grupo aprovavam o governo, enquanto 37% desaprovavam. Na disputa presidencial, 49% declaravam intenção de voto em Lula e 23% em Flávio Bolsonaro, com os demais distribuídos entre outros candidatos, indecisos, brancos e nulos.
Alimentos pesam mais no orçamento de quem ganha menos
A explicação passa principalmente pelo supermercado. Famílias de menor renda destinam proporcionalmente uma parcela maior de seus recursos a despesas essenciais, especialmente alimentação. Quando esses preços sobem, sobra menos dinheiro para transporte, moradia, lazer e outras despesas do mês.
Dados do IBGE mostram que alimentação e bebidas voltaram a exercer forte pressão sobre a inflação. Em março, o grupo avançou 0,88% no IPCA-15 e teve o maior impacto entre os nove grupos pesquisados. A pressão prosseguiu nos meses seguintes: em maio, alimentação e bebidas subiram 1,33% no IPCA, respondendo por metade da inflação daquele mês.
Essa composição ajuda a explicar por que a sensação de perda de renda pode ser maior do que sugere apenas o índice geral de inflação. Para quem compromete grande parte do salário com itens básicos, altas concentradas em comida, energia ou transporte atingem diretamente o consumo disponível.
Emprego forte não eliminou insatisfação econômica
O cenário expõe uma aparente contradição: indicadores do mercado de trabalho podem melhorar sem que as famílias necessariamente sintam aumento equivalente de bem-estar.
Ter emprego significa preservar renda, mas não garante aumento do poder aquisitivo. Se o salário cresce menos do que o conjunto de despesas que pesa no orçamento de determinada família, a percepção é de empobrecimento mesmo sem perda do posto de trabalho.
A pesquisa mostra exatamente essa diferença entre os indicadores macroeconômicos e a experiência cotidiana. Metade dos entrevistados considerava que a economia brasileira havia piorado nos 12 meses anteriores, enquanto apenas 40% esperavam melhora no período seguinte.
Pressão no bolso chega ao núcleo eleitoral do governo
A deterioração entre famílias de renda mais baixa acrescenta uma dimensão política ao problema econômico. Historicamente, Lula registra desempenho mais forte nesse segmento, e os dados da Quaest mostram que essa característica permanece.
Isso não significa que a perda de poder de compra leve automaticamente à mudança de voto. A própria pesquisa mostra que Lula continuava liderando com ampla vantagem nessa faixa de renda. O dado relevante é que a insatisfação econômica aumentou justamente onde o presidente possui sua maior concentração de apoio.
Para essas famílias, a avaliação da economia passa menos pelo crescimento do PIB ou pelo desempenho do mercado financeiro e mais pelo preço encontrado no supermercado, pela conta de energia, pelo combustível e por quanto resta do salário no fim do mês.
Com 72% dos brasileiros de baixa renda percebendo piora no poder de compra, o desafio econômico chega diretamente a uma das bases políticas mais importantes do governo Lula. Enquanto alimentos e despesas essenciais permanecerem pressionados, melhorar indicadores gerais da economia pode não ser suficiente para mudar a percepção de quem sente a inflação no orçamento todos os dias.
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