R$ 6 bilhões em tributos: como a Havan prosperou mesmo sob o peso do Estado brasileiro

Fundada em 1986, em Brusque (SC), a Havan saiu de uma pequena loja de tecidos para se tornar uma das maiores redes varejistas do país. Quatro décadas depois, a empresa projeta faturamento de R$ 22 bilhões, mantém mais de 20 mil funcionários e segue expandindo mesmo em um ambiente marcado por carga tributária elevada, burocracia e forte competição.
A história da Havan começou em uma sala de apenas 45 metros quadrados, com um balcão e um funcionário. Luciano Hang fundou a empresa em 1986 ao lado de Vanderlei de Limas, em Brusque, Santa Catarina. O nome da rede surgiu da combinação dos sobrenomes dos dois sócios.
Cinco anos depois, Hang ficou sozinho no negócio e acelerou a expansão. Em 1989, a empresa já havia mudado para uma estrutura de 2,5 mil metros quadrados. Em 1995, abriu sua primeira filial, em Curitiba, e passou a adotar elementos visuais que se tornariam parte da identidade da marca, como a fachada inspirada na Casa Branca e a Estátua da Liberdade.
Crescimento foi sustentado por expansão agressiva
Ao longo das décadas seguintes, a Havan deixou de ser uma loja especializada em tecidos para se transformar em uma rede de departamentos com milhares de produtos. A empresa chegou à marca de 100 lojas em 2017 e a 150 unidades em 2020. Em 2026, já operava quase 200 megalojas espalhadas pelo país.
A expansão continuou mesmo em um cenário difícil para grandes varejistas. Enquanto outras redes fecharam unidades ou entraram em processos de reestruturação, a Havan projetou investimento de cerca de R$ 1,2 bilhão em novas lojas e expansão em 2026, além de faturamento estimado em R$ 22 bilhões.
Segundo a empresa, a rede também mantém mais de 20 mil colaboradores e pretende continuar avançando principalmente em cidades médias das regiões Norte e Nordeste.
Burocracia virou um dos principais obstáculos
Luciano Hang costuma atribuir parte das dificuldades de crescimento ao ambiente regulatório brasileiro. Segundo ele, licenciamento, exigências municipais e demora na obtenção de autorizações podem atrasar projetos por anos. Em um dos casos citados pelo empresário, uma unidade levou 22 anos para reunir todas as licenças necessárias.
A crítica não significa que exigências ambientais, urbanísticas ou de segurança sejam dispensáveis. O ponto defendido por Hang é que a previsibilidade e a velocidade dos processos poderiam ser maiores.
A capital paulista, por exemplo, segue sem uma unidade da Havan, embora o estado de São Paulo esteja entre os que concentram mais lojas da rede. Hang atribui a ausência na cidade à complexidade burocrática local.
Empresa projeta R$ 6 bilhões em tributos
Outro ponto recorrente no discurso do empresário é a carga tributária. Segundo dados apresentados por Hang à Gazeta do Povo, a Havan pagou cerca de R$ 4 bilhões em tributos em 2024 e aproximadamente R$ 5 bilhões em 2025. Para 2026, a projeção chega a R$ 6 bilhões, considerando impostos e benefícios.
O montante equivale a uma parcela relevante do faturamento anual da empresa. Hang afirma que os tributos representam um dos maiores custos da operação e frequentemente usa esse argumento para defender simplificação tributária e redução do peso do Estado sobre empresas privadas.
A comparação, porém, precisa ser feita com cautela: tributos, fornecedores, salários, investimentos e lucro têm naturezas contábeis diferentes e não representam despesas diretamente comparáveis em todos os casos.
Modelo de megaloja se tornou diferencial
A Havan construiu sua expansão com um modelo padronizado de grandes lojas, forte presença de marca e ampla variedade de produtos. Em vez de operar apenas em grandes capitais, a empresa apostou fortemente em cidades médias, onde encontrou menor concorrência direta e custo imobiliário mais baixo.
Esse formato ajudou a empresa a criar escala nacional sem depender exclusivamente dos maiores centros urbanos. A rede também mantém capital fechado e controle concentrado em Luciano Hang, o que dá maior autonomia para decisões de longo prazo.
Próximo objetivo é chegar a 300 lojas
Depois de se aproximar da marca de 200 unidades, a Havan passou a mirar um novo patamar. Luciano Hang afirmou que pretende chegar a 300 megalojas e já possui cerca de 20 terrenos comprados para futuros projetos.
A trajetória ajuda a explicar como uma empresa criada no interior de Santa Catarina conseguiu atravessar quatro décadas, ampliar escala e manter crescimento em um dos setores mais competitivos da economia.
Mais do que uma história de expansão empresarial, o caso da Havan reúne temas centrais do ambiente de negócios brasileiro: tributação, burocracia, acesso a mercado, escala e capacidade de investimento. Foi nesse cenário que Luciano Hang transformou uma pequena loja de tecidos em uma rede nacional de varejo.
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