Com avanço dos pneus chineses no Brasil, Michelin fecha fábrica e afeta cerca de 350 trabalhadores

A indústria brasileira de pneus enfrenta uma das maiores pressões competitivas de sua história. A Michelin encerrou a produção de uma fábrica em Guarulhos após avaliar que a unidade havia perdido competitividade diante do avanço de produtos importados, enquanto a China passou a responder pela maior parte dos pneus estrangeiros vendidos no país.
O fechamento da antiga fábrica da Levorin, em Guarulhos, expõe uma transformação profunda no mercado brasileiro de pneus. A unidade, adquirida pela Michelin em 2016, produzia câmaras de ar para motocicletas e bicicletas, pneus industriais e componentes destinados a outras fábricas do grupo. A produção foi encerrada definitivamente no fim de 2025, afetando cerca de 350 trabalhadores.
A Michelin afirmou que o aumento da concorrência de produtos importados, principalmente asiáticos, tornou a operação economicamente inviável. O encerramento não significou a saída da multinacional do Brasil, mas evidenciou a dificuldade crescente de manter determinadas linhas de produção diante de mercadorias estrangeiras vendidas a preços mais baixos.
Importados já dominam mercado de reposição
A pressão se intensificou rapidamente. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil importou 34,2 milhões de pneus, alta de 58,3% em relação aos 21,6 milhões registrados no mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, as vendas das fabricantes instaladas no país para o mercado de reposição recuaram 13,3%.
Os importados passaram a representar 70% do mercado brasileiro de reposição, deixando apenas 30% para a produção nacional. Esse segmento é particularmente importante porque responde por cerca de 62% das vendas totais das fabricantes instaladas no país.
A China é o principal fornecedor estrangeiro. Nos primeiros oito meses de 2026, o país asiático respondeu por 81% dos pneus de passeio importados pelo Brasil, com 21,8 milhões de unidades, além de 2,64 milhões de pneus de carga.
Produção brasileira perde espaço
A consequência aparece diretamente nas fábricas. No primeiro semestre de 2026, as fabricantes nacionais venderam 17,8 milhões de pneus de passeio, comerciais leves e carga, contra 19,1 milhões no mesmo período de 2025, uma queda de 6,8%. Enquanto isso, as importações cresceram 81,2% no período.
A crise não se restringe à Michelin. A Bridgestone afirmou que sua fábrica brasileira de pneus agrícolas permanece fechada desde o início de 2025, operação que empregava aproximadamente 200 pessoas. O presidente da empresa no Brasil classificou o atual momento como a maior crise da história da indústria pneumática nacional.
A capacidade instalada no segmento de pneus de passeio chega a aproximadamente 52 milhões de unidades anuais, mas parte dessa estrutura permanece ociosa à medida que produtos estrangeiros conquistam participação.
China ganhou escala e preço virou diferencial
A vantagem chinesa está ligada principalmente à enorme escala industrial, aos custos de produção e à capacidade de abastecer diferentes mercados internacionais. Para fabricantes brasileiros, competir apenas pelo preço se torna difícil quando custos locais de energia, mão de obra, crédito, tributação e logística são incorporados ao produto final.
A indústria instalada no país também questiona diferenças regulatórias. Entidades do setor afirmam que parte dos pneus importados não suporta os mesmos custos ambientais e de logística reversa aplicados às empresas que produzem localmente. Essas alegações são contestadas por importadores, que defendem maior concorrência e preços menores para consumidores.
Governo mantém medidas antidumping
O avanço das importações já levou o governo a adotar mecanismos de defesa comercial. O Ministério do Desenvolvimento mantém uma revisão das medidas antidumping sobre pneus de carga originários da China, Coreia do Sul, Japão e Tailândia.
O objetivo desse tipo de instrumento não é impedir importações, mas corrigir situações em que produtos estrangeiros são vendidos abaixo de determinadas referências consideradas compatíveis com condições normais de comércio.
Ainda assim, qualquer aumento de tarifas cria outro debate: fabricantes nacionais defendem proteção contra concorrência considerada desleal, enquanto importadores alertam que barreiras maiores podem elevar preços ao consumidor.
Fechamento da Michelin é sinal de um problema maior
Não é possível atribuir o encerramento da unidade de Guarulhos exclusivamente à China. A própria Michelin mencionou de forma mais ampla a pressão de importados asiáticos e também realizou reestruturações em fábricas de outros países.
Mas o cenário brasileiro mostra que a China se tornou o principal vetor dessa mudança. Com mais de oito em cada dez pneus de passeio importados vindo do país asiático e os produtos estrangeiros já dominando 70% do mercado de reposição, a competição deixou de ser marginal.
O risco para o Brasil é entrar em um ciclo no qual a produção local perde escala, fábricas operam abaixo da capacidade e novos investimentos deixam de acontecer. O fechamento de uma unidade histórica da Michelin, portanto, não é um caso isolado: ele ocorre em meio a uma transformação estrutural que vem reduzindo rapidamente o espaço da indústria nacional no próprio mercado brasileiro.
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