China amplia presença no Brasil e disputa mercados estratégicos com a indústria nacional

A presença chinesa na economia brasileira já não se resume às importações de produtos baratos. Nos últimos anos, empresas do país asiático passaram a ocupar espaços em setores que vão da transmissão de energia aos automóveis, passando por eletrodomésticos, tecnologia, alimentação, comércio eletrônico e serviços.
Segundo levantamento da Euromonitor International citado pelo UOL, os investimentos chineses no Brasil somaram aproximadamente US$ 45 bilhões, ou R$ 230 bilhões, entre 2015 e 2025. Somente em 2025, foram US$ 6,1 bilhões, alta de 45% sobre o ano anterior. O Brasil foi, naquele ano, o principal destino dos investimentos chineses no mundo, segundo o estudo.
O número chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pela mudança no perfil desses investimentos. Se anteriormente a participação chinesa estava muito concentrada em grandes projetos de infraestrutura e energia, agora as companhias também estão buscando diretamente o consumidor brasileiro.
Da infraestrutura ao consumidor
Um dos exemplos mais claros dessa transformação está no setor automotivo. A BYD passou de importadora de veículos eletrificados a fabricante instalada no Brasil, com complexo industrial em Camaçari, na Bahia.
A empresa investe cerca de R$ 5,5 bilhões no projeto baiano e pretende ampliar gradualmente o conteúdo produzido localmente. Em 2026, a companhia também lançou seu primeiro híbrido plug-in flex produzido no país. A estratégia inclui fabricação de baterias e transformação do Brasil em uma possível base de exportação regional.
O avanço não ocorre apenas com a BYD. A chinesa Geely anunciou, em parceria com a Renault, um investimento conjunto de € 319 milhões no Brasil, em uma estratégia que ocorre justamente enquanto montadoras chinesas ampliam sua presença no mercado de veículos eletrificados.
O movimento é relevante porque o setor automobilístico brasileiro tradicionalmente foi dominado por grandes fabricantes europeias, americanas e japonesas. A chegada das marcas chinesas adiciona novos concorrentes em segmentos que estão passando por uma transformação tecnológica.
Energia é outro ponto estratégico
Na infraestrutura elétrica, a presença chinesa é ainda mais antiga e de escala elevada. A State Grid, uma das maiores empresas de energia do mundo, atua no Brasil desde 2010. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a State Grid Brazil Holding possui aproximadamente 16 mil quilômetros de linhas de transmissão e mais de 29 mil torres em 13 estados, com investimentos superiores a R$ 28 bilhões no país.
A companhia também venceu grandes leilões de transmissão. Um dos projetos envolve um bipolo de aproximadamente 1.500 quilômetros, ligando Maranhão, Tocantins e Goiás, com investimento estimado em R$ 18,1 bilhões.
Nesse setor, portanto, a presença chinesa não está relacionada apenas à venda de equipamentos. Ela envolve participação direta em uma infraestrutura essencial para transportar energia pelo território brasileiro.
O “made in China” começa a mudar
A expansão também aparece em produtos de consumo. Segundo a análise da Euromonitor, empresas chinesas avançaram no Brasil em segmentos como eletrônicos, veículos elétricos, eletrodomésticos, moda, delivery, alimentação e cosméticos.
A mudança pode ser resumida pela passagem do tradicional “made in China” para o “made by China in Brazil”. Em vez de produzir exclusivamente na Ásia e exportar para o consumidor brasileiro, algumas companhias estão instalando fábricas, centros de pesquisa, redes de distribuição e operações comerciais dentro do país.
A Midea, por exemplo, consolidou operações industriais brasileiras e utiliza o país também como plataforma para atender outros mercados latino-americanos. No comércio eletrônico, o AliExpress mantém presença no Brasil há anos e vem ampliando relações com empresas locais. Já a chinesa Mixue anunciou planos de investir R$ 3 bilhões no país e chegar a mil lojas até 2030.
Por que o Brasil interessa tanto à China?
O tamanho do mercado consumidor brasileiro é apenas uma parte da explicação. O país também oferece acesso a recursos naturais, uma grande base agrícola, mercado energético relevante e posição estratégica dentro da América Latina.
A própria estrutura produtiva brasileira cria oportunidades para empresas que pretendem combinar produção local com exportação regional.
Outro fator é a desaceleração de mercados mais maduros. A Euromonitor avalia que o crescimento mais moderado da economia chinesa incentiva suas empresas a procurar novos mercados, enquanto tensões comerciais com Estados Unidos e Europa aumentam a importância de outras regiões.
Isso significa que a China está “dominando” a economia brasileira?
Os dados mostram uma expansão significativa e diversificada da presença empresarial chinesa, mas a expressão “dominando” precisa ser usada com cuidado. Empresas brasileiras e multinacionais de outros países continuam tendo posições relevantes nos mesmos mercados.
O que mudou é a dimensão da concorrência chinesa. A China deixou de atuar principalmente como grande fornecedora de produtos importados e passou a disputar diretamente produção, infraestrutura, tecnologia, distribuição e consumidores dentro do Brasil.
Esse movimento também cria uma disputa diferente da tradicional competição por preço. As empresas chinesas estão trazendo capital, tecnologia, escala industrial e modelos de negócio desenvolvidos em um dos maiores mercados do mundo.
Para o Brasil, o resultado envolve simultaneamente entrada de investimentos, criação de capacidade produtiva e aumento da concorrência, mas também levanta discussões sobre conteúdo nacional, dependência tecnológica, competição com empresas instaladas no país e controle de infraestruturas estratégicas. A questão central, portanto, não é mais apenas quantos produtos chineses chegam ao Brasil. É quanto da economia brasileira as empresas chinesas conseguirão ocupar diretamente nos próximos anos.







