Sob Lula, avanço chinês pressiona indústria brasileira e amplia perda de setores estratégicos

A aproximação política e econômica do governo Lula com a China ocorre ao mesmo tempo em que a indústria brasileira perde mercado para produtos chineses em setores como aço, máquinas, calçados, veículos, eletrônicos e plásticos. Entidades industriais alertam para déficit recorde em manufaturados, fechamento de fábricas e perda de empregos, enquanto o governo segue ampliando acordos e investimentos com grupos chineses.
A relação entre Brasil e China ganhou uma dimensão muito maior sob o governo Lula. Além de comércio, Brasília passou a aprofundar parcerias em infraestrutura, energia, tecnologia, mineração, logística e indústria, apresentando o capital chinês como parte de uma estratégia de reindustrialização.
O problema é que, no mesmo período, fabricantes brasileiros passaram a perder espaço dentro do próprio país. A Coalizão Indústria estima que o déficit brasileiro no comércio de manufaturados pode chegar a US$ 146,4 bilhões em 2026, acima dos US$ 134 bilhões de 2025. O grupo afirma que o mercado doméstico cresce, mas uma parcela cada vez maior dessa demanda está sendo capturada pelas importações.
Produtos chineses avançam onde o Brasil ainda produz
A pressão não está restrita a mercadorias baratas vendidas pela internet. Aço, automóveis, máquinas, equipamentos elétricos, calçados, brinquedos, plásticos, cimento e outros segmentos relatam perda de participação para produtos importados.
Os setores reunidos na Coalizão Indústria respondem por cerca de 44,8% do PIB industrial, movimentam aproximadamente R$ 1,1 trilhão e estão ligados a 48,6 milhões de empregos diretos e indiretos. Para 2026, a expectativa do grupo é de crescimento industrial inferior a 2%, enquanto as importações devem avançar perto de 6%.
No aço, entidades afirmam que importações consideradas predatórias já tomaram cerca de um terço do mercado brasileiro. Calçadistas enfrentam crescimento dos produtos asiáticos, enquanto fabricantes de máquinas, veículos e outros bens industriais cobram reação mais dura do governo.
Brasil vende matéria-prima e compra indústria
A relação comercial também revela uma assimetria difícil de ignorar. O Brasil exporta principalmente soja, minério de ferro, petróleo e outras commodities para a China, enquanto recebe de volta máquinas, eletrônicos, componentes e bens industriais de maior conteúdo tecnológico.
Em 2023, 74% das importações brasileiras de produtos industriais chineses estavam nas categorias de média-alta ou alta intensidade tecnológica, enquanto apenas 5% das exportações brasileiras para a China pertenciam a essas faixas, segundo levantamento citado pela Aepet.
Estudo acadêmico publicado na revista Nova Economia já havia identificado que o avanço chinês ocorreu de forma transversal na indústria brasileira e contribuiu para aprofundar a especialização do país em produtos primários e o desadensamento da estrutura produtiva.
Governo amplia aproximação justamente durante perda industrial
A crítica ao governo Lula ganha força porque essa perda de espaço ocorre simultaneamente a uma política deliberada de aproximação com Pequim. O Executivo busca capital chinês para infraestrutura, energia, mineração e indústria e trata essa relação como eixo estratégico da política econômica e externa.
Para os críticos, o risco é transformar investimento estrangeiro em substituição da indústria nacional. Uma fábrica chinesa instalada no Brasil pode gerar emprego, mas isso não significa necessariamente fortalecimento da cadeia brasileira se máquinas, componentes, tecnologia e fornecedores continuarem vindo majoritariamente da China.
Esse é o ponto central da crítica industrial: chamar toda entrada de capital chinês de “investimento” não resolve o problema se, paralelamente, fabricantes nacionais fecham linhas, reduzem produção ou perdem mercado.
Dependência pode se tornar estrutural
O alerta é particularmente grave porque a perda de uma cadeia industrial não é facilmente revertida. Quando fábricas fecham, fornecedores desaparecem, trabalhadores especializados migram e investimentos são cancelados, reconstruir aquela capacidade anos depois pode custar muito mais.
A Aepet classificou o processo como uma “chacina silenciosa” da indústria brasileira e chamou atenção para o fato de o país exportar algodão e importar roupas, vender celulose e comprar papel, além de exportar minério e importar produtos siderúrgicos de maior valor agregado.
O custo pode aparecer no emprego
O maior risco não é simplesmente comprar produtos chineses mais baratos. É permitir que a diferença de escala, subsídios, financiamento e custos leve empresas brasileiras a perder competitividade até que a produção local deixe de existir.
Nesse cenário, o consumidor pode ganhar preços menores no curto prazo, mas o país perde fábricas, empregos qualificados, tecnologia e capacidade de produzir bens estratégicos. Os fatos mostram que, enquanto Brasília aprofunda sua aliança econômica com Pequim, setores relevantes da indústria brasileira relatam perda de mercado, déficit recorde em manufaturados e pressão crescente das importações chinesas.
O risco é que uma política apresentada como parceria termine consolidando exatamente o contrário do que promete: um Brasil cada vez mais exportador de matéria-prima e dependente da indústria chinesa para produzir os bens de maior valor agregado.
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