Flávio defende mudanças na Reforma Tributária e campanha promete acabar com split payment

Candidato à Presidência afirma que pretende revisar pontos da Reforma Tributária caso seja eleito, enquanto sua coordenação econômica coloca o split payment entre os mecanismos que seriam retirados. O sistema, criado para separar automaticamente IBS e CBS no momento do pagamento, é defendido pelo governo como ferramenta de eficiência e combate à sonegação, mas enfrenta críticas pelo impacto potencial sobre o capital de giro das empresas.
A Reforma Tributária voltou ao centro do debate eleitoral depois que Flávio Bolsonaro (PL) passou a defender mudanças no modelo aprovado pelo Congresso. A principal crítica de sua equipe econômica está no split payment, mecanismo que separa automaticamente os tributos de uma operação antes que o valor integral chegue ao caixa da empresa.
A coordenadora econômica da campanha, Dani Marques, afirmou que um eventual governo Flávio pretende acabar com o sistema. O argumento apresentado pela equipe é que a retenção imediata de IBS e CBS pode reduzir a liquidez das empresas, especialmente dos pequenos negócios, que hoje utilizam temporariamente parte desses recursos para financiar despesas correntes e capital de giro.
Como funciona o split payment
O split payment, ou pagamento dividido, foi incorporado ao novo sistema tributário para permitir que os impostos sobre consumo sejam separados no momento da liquidação financeira. Quando uma empresa recebe por Pix, boleto ou outro meio integrado ao sistema, a parcela correspondente ao IBS e à CBS pode ser direcionada diretamente ao poder público, enquanto o restante segue para o fornecedor.
Na prática, isso muda a relação entre venda, recebimento e pagamento de impostos. No modelo tradicional, a empresa recebe o valor integral da operação e recolhe os tributos posteriormente. Com o novo mecanismo, parte do dinheiro deixa de circular temporariamente pelo caixa empresarial.
A implementação ainda está em andamento. A Receita Federal informou que os testes da plataforma pública começam em 15 de outubro de 2026, em ambiente controlado, sem impacto sobre operações reais. A adoção ocorrerá de forma gradual antes da aplicação mais ampla do sistema.
Capital de giro está no centro das críticas
A principal preocupação de setores empresariais está no efeito sobre o fluxo de caixa. Empresas usam o intervalo entre o recebimento de uma venda e o recolhimento dos impostos para pagar fornecedores, salários, estoques e outras despesas operacionais.
Com a separação automática, essa parcela deixa de ficar disponível durante esse período. Para negócios com margens menores ou forte necessidade de capital de giro, isso pode aumentar a dependência de crédito bancário ou antecipação de recebíveis, elevando custos financeiros.
Esse impacto tende a variar entre setores. Empresas com caixa robusto ou menor necessidade de financiamento podem sentir menos efeitos, enquanto negócios de menor porte e operações com prazos longos de recebimento podem precisar reorganizar sua estrutura financeira.
Governo argumenta que sistema reduz sonegação
O outro lado do debate está na arrecadação e no aproveitamento de créditos tributários. O desenho do split payment busca reduzir situações em que o imposto é cobrado do consumidor, mas não chega aos cofres públicos, além de tornar mais automática a compensação de créditos de IBS e CBS ao longo da cadeia.
A Receita Federal sustenta que a tecnologia pode aumentar a eficiência do novo sistema tributário e diminuir fraudes e inadimplência. O mecanismo também faz parte da arquitetura pensada para viabilizar o modelo de imposto sobre valor agregado introduzido pela reforma.
Por isso, uma eventual retirada do split payment exigiria alterações legais e uma solução alternativa para garantir o recolhimento e o funcionamento do sistema de créditos.
Reforma Tributária entra na disputa eleitoral
A crítica ao split payment faz parte de uma discussão mais ampla sobre o futuro da reforma. Flávio afirmou que pretende rever pontos do sistema tributário, enquanto o governo atual mantém o cronograma de implementação de IBS, CBS e das plataformas tecnológicas necessárias ao novo modelo.
A tributação também aparece entre as principais preocupações do setor empresarial. Pesquisa do FGV Ibre com cerca de 4 mil empresas mostrou que 54,2% apontam os impostos como prioridade para o próximo governo, à frente de contas públicas, burocracia e infraestrutura.
O debate, portanto, não se resume a manter ou eliminar um mecanismo. O principal desafio será conciliar eficiência na arrecadação com preservação do caixa das empresas, sobretudo das pequenas, sem comprometer o sistema de créditos que sustenta o novo modelo tributário.






