Estatal chinesa COFCO se torna a maior exportadora agrícola do Brasil e supera gigantes nacionais

A estatal chinesa ampliou sua presença no agronegócio brasileiro e passou a ocupar o topo entre as exportadoras agrícolas do país. O avanço combina compra de commodities, armazenagem, ferrovia e operação portuária, com investimentos bilionários e presença crescente no Porto de Santos.
A presença chinesa no agronegócio brasileiro deixou de se limitar à compra de soja, milho e outras commodities. A COFCO International, braço global de agronegócio da estatal chinesa COFCO Corporation, tornou-se a maior exportadora agrícola do Brasil, com cerca de 17 milhões de toneladas movimentadas em 2024, principalmente em soja, milho e açúcar.
O avanço chama atenção porque a empresa passou a disputar espaço diretamente com grandes tradings internacionais e grupos consolidados no mercado brasileiro. Mais do que comprar produção, a COFCO vem ampliando sua atuação em etapas estratégicas da cadeia, incluindo armazenagem, transporte ferroviário e infraestrutura portuária.
COFCO avança sobre exportação, armazenagem e logística
A operação brasileira é conduzida pela COFCO International, braço internacional da COFCO Corporation, grupo estatal controlado pelo governo central da China. A divisão internacional concentra compra, comercialização, armazenagem e logística de commodities em dezenas de países e funciona como a principal plataforma global do conglomerado fora do mercado chinês.
Esse modelo ajuda a explicar a rapidez da expansão no Brasil. Em vez de atuar apenas como compradora final, a companhia passou a participar diretamente da originação dos grãos, da armazenagem e do escoamento da produção até os portos.
A estratégia ganhou força a partir de 2014, com aquisições de participações na Nidera e na Noble Agri. Essas operações deram à empresa acesso imediato a estruturas já consolidadas de comercialização e logística no país.
Porto de Santos virou peça central da estratégia
O maior símbolo desse avanço está no Porto de Santos, principal complexo portuário do país. A COFCO investiu cerca de R$ 1,64 bilhão no terminal STS11 e outros R$ 1,2 bilhão na compra de 979 vagões e 23 locomotivas destinadas ao transporte de grãos e açúcar até o litoral paulista.
Com a ampliação, a capacidade própria da empresa em Santos pode chegar a aproximadamente 14 milhões de toneladas por ano, muito acima do volume anteriormente movimentado. O terminal se tornou um dos principais ativos logísticos da companhia fora da China.
A integração ferroviária também reduz a dependência de terceiros e aumenta a capacidade de controlar custos e prazos desde as regiões produtoras até o embarque internacional.
China deixou de ser apenas compradora
A mudança mais relevante está na verticalização da operação. A China continua sendo o maior destino do agronegócio brasileiro, mas uma empresa controlada pelo Estado chinês passou também a atuar na compra, transporte, armazenagem e exportação da produção.
Em 2025, a China comprou cerca de US$ 55,3 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro, equivalente a aproximadamente um terço de todas as exportações do setor. No caso da soja, a participação chinesa é ainda maior e pode se aproximar de 80% dos embarques em determinados períodos.
Essa dependência comercial amplia a importância estratégica de empresas ligadas ao mercado chinês. Quanto maior a presença dessas companhias na infraestrutura e na comercialização, maior também é a integração entre o produtor brasileiro e o principal destino externo de sua produção.
Concorrência com gigantes nacionais e internacionais aumenta
A COFCO passou a disputar mercado diretamente com empresas como Cargill, Bunge, ADM e Louis Dreyfus, além de grandes grupos brasileiros ligados ao agronegócio. O crescimento acelerado permitiu à estatal chinesa ocupar espaço antes concentrado em tradings tradicionais.
Esse movimento pode aumentar a competição na compra de grãos e na oferta de infraestrutura, mas também levanta discussões sobre concentração e dependência de capital estrangeiro em etapas consideradas estratégicas.
Para produtores, mais compradores podem significar melhores condições de negociação em determinados momentos. Por outro lado, a presença crescente de uma empresa estatal estrangeira em diferentes pontos da cadeia chama atenção para questões de soberania econômica e diversificação de mercado.
Avanço chinês vai além do campo
A expansão da COFCO faz parte de um movimento mais amplo de empresas chinesas no Brasil, especialmente em infraestrutura, energia, logística e transporte. No agronegócio, o interesse se concentra justamente em garantir acesso estável a alimentos e matérias-primas.
O caso da COFCO é emblemático porque reúne duas pontas da mesma relação: a China é o principal comprador de produtos agrícolas brasileiros e, ao mesmo tempo, uma empresa estatal chinesa passa a controlar parcelas cada vez maiores da estrutura que leva esses produtos até o exterior.
Isso não significa que a China controle o Porto de Santos ou o agronegócio brasileiro. Os terminais operam sob concessões e regras nacionais, e o setor segue formado por vários grupos concorrentes.
Ainda assim, o avanço da COFCO mostra uma mudança estrutural importante: a participação chinesa deixou de estar restrita ao destino final das commodities e passou a ocupar posições relevantes dentro da própria cadeia de exportação brasileira.







