Indústria de calçados no Ceará é ameaçada por avanço chinês no setor

Líder nacional na produção de calçados, o Ceará enfrenta uma combinação cada vez mais difícil: queda nas exportações, aumento das importações asiáticas e avanço de produtos chineses de baixo custo no mercado brasileiro. Em 2026, as compras de calçados da China voltaram a crescer em ritmo de dois dígitos, enquanto as vendas externas cearenses recuaram.
O Ceará construiu nas últimas décadas uma das maiores estruturas calçadistas do país. Em 2025, o estado produziu 206,8 milhões de pares, equivalentes a 24,4% de toda a produção nacional, e também liderou as exportações brasileiras em volume. Esse desempenho transformou polos como Sobral, Juazeiro do Norte, Quixadá e Fortaleza em centros industriais de grande relevância.
O cenário, porém, começou a ficar mais pressionado. Ao mesmo tempo em que empresas cearenses perderam espaço em mercados externos importantes, o Brasil passou a receber volumes recordes de calçados asiáticos, principalmente da China, Vietnã e Indonésia. Para uma indústria intensiva em mão de obra e sensível a preço, essa combinação aumenta a pressão sobre margens, produção e empregos.
China ganha espaço no mercado brasileiro
Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 10,74 milhões de pares de calçados chineses, alta de 22,5% em relação ao mesmo período de 2025. O valor das compras chegou a US$ 37,5 milhões. Apenas em setembro, as importações vindas da China avançaram 45% em volume.
A China não atua sozinha. Vietnã e Indonésia também ampliaram presença no mercado brasileiro, e os três países asiáticos respondem por cerca de oito em cada dez pares importados pelo Brasil. Esse avanço ocorre principalmente em faixas de preço nas quais fabricantes nacionais encontram dificuldade para competir.
Em julho de 2026, o Brasil chegou a importar mais calçados do que exportou em valor pela primeira vez em quase três décadas: foram US$ 66 milhões em compras externas contra US$ 62 milhões em vendas ao exterior.
Ceará sente pressão também nas exportações
A dificuldade não está apenas dentro do mercado brasileiro. Até setembro de 2026, as exportações cearenses somaram 19,6 milhões de pares e US$ 108,4 milhões, quedas de 19% em volume e 23,8% em receita na comparação anual.
A perda de mercados tradicionais agravou esse cenário. Nos sete primeiros meses do ano, as exportações do Ceará para a Argentina despencaram 84,6% em valor, passando de US$ 17,6 milhões para US$ 2,7 milhões. No mesmo período, as vendas externas totais do setor cearense caíram 28% em valor.
Esse movimento é particularmente relevante porque o Ceará possui um perfil industrial fortemente voltado para grandes volumes. Em 2025, o estado exportou 32,6 milhões de pares, cerca de 31,4% de todos os calçados enviados pelo Brasil ao exterior.
Preço virou principal arma da concorrência asiática
Parte da vantagem chinesa está no custo. No primeiro semestre de 2026, o Brasil importou cerca de 9,7 milhões de pares da China por US$ 26,5 milhões, o que evidencia um valor médio muito baixo por unidade em determinadas categorias.
A diferença de preço pressiona principalmente empresas brasileiras que competem em segmentos populares, nos quais poucos reais de diferença podem definir a decisão de compra.
Fabricantes nacionais ainda enfrentam custos com mão de obra, energia, impostos, transporte, crédito e insumos, enquanto concorrentes asiáticos trabalham com enorme escala industrial e cadeias produtivas altamente integradas.
Empregos do interior ficam mais expostos
O peso da indústria calçadista no Ceará vai além das exportações. O setor emprega dezenas de milhares de trabalhadores e tem forte presença fora da Região Metropolitana de Fortaleza. Sobral concentra produção em grande escala, enquanto o Cariri reúne uma ampla rede de pequenas e médias fábricas.
Por isso, uma perda prolongada de competitividade pode atingir diretamente municípios onde o setor representa parcela importante do emprego industrial e da renda local.
Setor pede proteção contra avanço asiático
A Abicalçados vem defendendo medidas para conter o crescimento das importações. A entidade argumenta que o avanço asiático não ocorre apenas para atender aumento do consumo, mas também substitui produção que poderia ser realizada no Brasil.
Entre as propostas discutidas estão cotas e instrumentos de defesa comercial. O governo, porém, afirmou ainda não ter recebido pedido formal específico para aplicação de cotas no setor.
O desafio para o Ceará é preservar uma liderança construída durante décadas em um ambiente de competição cada vez mais internacional. O estado continua sendo o maior produtor de calçados do Brasil, mas agora precisa defender espaço simultaneamente no mercado externo e dentro do próprio país.
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